A Hora Certa

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A Hora Certa

    Já passava das dez. Era a hora do alerta. Embora o toque de recolher fosse algo frequente há mais de um ano na pequena Delleville, as ameaças à paz noturna também eram contínuas. Julie vivia um paradoxo, passar a noite entre descansar poucas horas antes do alvorecer ou ficar alerta. Para a maioria dos moradores essa dúvida nem sequer passava pela cabeça. Algumas armadilhas na porta de entrada, trouxas de roupas preparadas ao pé da cama e pães embalados próximo as escadarias eram o suficiente para uma fuga rápida, mas a maioria dos moradores não tinham filhos. Muito menos crianças da idade dos de Julie.

    Antes de falecer, George era o único provedor da casa. O bar, herdado de seu pai, decretou falência poucos anos depois da guerra. Naquela época, o recém casado resolveu praticar outro ofício e passou a consertar as coisas de valor dos soldados. Julie não sabia consertar nada, mas ajudava como podia. Lavava e passava os uniformes dos generais mais exigentes, que preferiam um serviço cauteloso ao que o governo oferecia, porém não rendia muito dinheiro. Poucos pagavam pelos cuidados com um pedaço de pano que, certamente, viraria farrapo em pouco tempo de uso. Dessa forma, Julie aprendeu a fazer pão para sobreviver e, entre uma fornada e outra, juntou alguns trocados que auxiliavam na renda da casa.

   O jovem casal tentava esconder a realidade dos filhos. Sempre que podia, George criava brinquedos com os materiais que sobravam dos consertos, contava histórias, dava atenção e carinho. Fizera Julie prometer que por mais que faltasse tudo, nunca haveria de faltar amor. Poucas semanas depois o nome de George estava na lista de convocação. A guerra levara tudo: os poucos pertences, o nome, a honra e a felicidade, mas nada foi tão doloroso para Julie quanto perder sua base, sua estrutura. George se foi poucos meses depois e deixou o verdadeiro peso da guerra nos ombros da esposa.

   Com a saudade do que poderia ter sido, Julie deixava a noite passar. Seu coração já pressentia que havia algo além daquele silêncio repentino e nas últimas badaladas da madrugada ouviu os gritos e a correria.  Acordou seus filhos, sob protestos de algum sonho bom e outras trivialidades, e correu para a cozinha em busca de algum pedaço de pão. Ao voltar para o quarto, viu seus pequenos, ainda sonolentos, descerem as escadarias como o combinado e voltou a procura de sua aliança, único bem que poderia garantir alguma coisa para os dias difíceis que viriam, mas o estrondo da porta foi seu alerta.

   Seus pés sôfregos mudaram a rota e desceram velozmente as escada escuras. Julie tropeçou em Alice e levantou a filha com uma habilidade espantosa, coisa que certamente não faria se não fosse o momento de tensão.  O escuro não lhe permitiu achar o caminho com facilidade e seus dedos tremiam demais para acender uma vela. Julie deitou no chão e tateou até encontrar a argola do alçapão. Seu desespero aumentava a medida que os passos dos soldados ficavam mais agudos, mas seus dedos finalmente encontraram a porta da esperança.

   — Mamãe não podemos ir sem o Bob, ele caiu na escada. — Alice choramingava enquanto Julie olhava atônita para a filha.

  — Não vamos voltar por causa de um urso velho. — As palavras saíram mais grosserias do que Julie gostaria, mas a tensão do momento não lhe permitiu cumprir à risca a promessa  que fizera a George. —Agora Corram!

     Os olhos de Alice já ensaiavam uma torrente de lágrimas, quando Julie segurou o braço da pequena e decretou:

   —Vamos! Quando as coisas melhorarem te dou outro urso. — o coração de Julie ficou apertado, mas a vida de seus filhos era mais importante naquele momento.

   Alice inconformada desvencilhou-se dos braços da mãe e partiu em disparada para a entrada do velho alçapão.

   — Papai pediu para eu cuidar do Bob como se fosse um tesouro. — Falou e correu sem chances de ser alcançada a tempo.

   Julie sentiu o coração parar. Pediu para o pequeno Tom esconder-se até que voltassem e foi atrás de Alice. A menina subiu as escadas sorridente e foi ao encontro do seu companheiro, em um porão que já não estava mais tão escuro quanto antes, mas outras mãos também tocaram o objeto.

  — Este urso é seu? — um homem de meia idade olhou cauteloso para Alice e a menina respondeu solicita.

  — Sim, presente do papai.

  — E onde ele está agora menina? — o homem segurou o braço de Alice com força.

  — SOLTA MINHA FILHA! — Julie gritou desesperada. — O que o senhor procura está aqui. — estendeu uma caixa de ferro decorada com fios de ouro. —É a única coisa de valor que possuímos. Por favor! Deixe-nos em paz.

   — A senhora infringiu a lei duas vezes, uma ao burlar o toque de recolher, outra ao enfrentar um general. Sinto muito senhora, mas vou ter que levá-la comigo e a criança fica em algum abrigo. Quanto à peça, não sei se é ouro mesmo, mas pouco importa. Será confiscada para fins do governo.

   O general virou-se para acender a vela e chamar por seus guardas, foi a deixa de Julie. Seus sentidos agiram mecanicamente e sem pensar na presença da filha ou nas consequências futuras, acertou a caixa em cheio na cabeça do general que caiu automaticamente no chão. Ao vê-lo neste estado, puxou Alice e desceu as escadas aos pulos e tropeços. Trancou o alçapão por fora com um pedaço de madeira e resgatou Tom do esconderijo. Os três correram mata adentro e, felizmente, um senhor de idade avançada passava pela estrada com sua carroça, decidindo assim dar carona a pequena família.

  — Onde a senhora pretende ir?

  — Pouco importa senhor. — Julie assentiu com a cabeça em agradecimento e falou baixinho mais para si mesma. — O destino pouco importa.

   Julie passou algumas horas imaginando o que seria do seu futuro. Tom dormiu em seus braços e a pequena Alice ficou todo esse tempo a olhar pensativa para o urso, sem mencionar o ocorrido.

  — Me perdoe querida! Sei que Bob é importante para você, mas preciso que entenda que quase nos separamos para sempre por causa de um urso.

  — Eu sei mamãe, mas tive que recuperar Bob. Papai me disse que quando você precisasse eu deveria ser a mocinha da casa e deixar o urso para trás.

   Julie riu da confusão da menina e abraçou a filha.

  — Aquela era a hora de deixar o urso ir. —  fez cafuné nos cabelos da filha enquanto observava a calmaria da noite pela janela.

  — Não mamãe. — Alice torceu o pescoço do velho urso até rasgar e arrancou sua cabeça. — A hora é agora.

   Julie fez uma expressão de descontentamento diante da cena. Passaram por tantos perigos para nada.

  — Pronto! — Alice retirou um envelope de dentro do urso e estendeu sorridente para mãe. — Papai costurou e pediu segredo, disse que eu saberia a hora certa de dizer adeus ao Bob.

    Julie abriu atônita o envelope e soltou um suspiro ao ver todas as economias de uma vida de privações ali na sua frente. Ficou sem voz. Muito mais do que isso, ficou sem palavras. Aquilo era muito mais do que dinheiro para manter-se por um tempo, mais do que sobrevivência e alimentação para seus filhos. George havia deixado para a pequena Alice um testamento grandioso que cabia no menor dos recipientes. Seu amado havia deixado um grande ensinamento no coraçãozinho da filha que já não era mais tão frágil e a pequena, por sua vez, já sabia a hora certa de aplicar.


Juliana Lima.

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